Aprender com a natureza é o caminho mais inteligente — e urgente — para que empresas prosperem em um planeta em transformação
Foto: Albori Ribeiro
Enquanto líderes mundiais se reúnem em Belém, no Paraná, na COP-30, entre os dias 10 a 21 de novembro, para discutir o futuro do clima e das economias globais, uma certeza se impõe: a natureza precisa deixar de ser vista como cenário e receber papel de protagonista das soluções que o futuro exige. A biomimética, ciência que estuda como a vida resolve desafios há bilhões de anos, mostra que a chave para inovar de forma ambientalmente responsável está, justamente, em reaprender com os sistemas naturais e traduzi-los para a gestão, a tecnologia e os negócios.
A sabedoria da vida aplicada aos negócios
O termo biomimética vem do grego bios (vida) e mimesis (imitação). A ideia é simples e revolucionária: observar como os organismos e ecossistemas funcionam para inspirar soluções humanas mais eficientes, resilientes e harmônicas.
Foi a partir dessa lógica que engenheiros japoneses redesenharam o trem-bala, inspirando-se no bico aerodinâmico do martim-pescador, para reduzir ruído e consumo de energia, por exemplo. O mesmo princípio já inspirou pás de turbinas eólicas modeladas nas nadadeiras das baleias-jubarte e revestimentos autolimpantes criados a partir das folhas da flor-de-lótus.
Esses exemplos não são curiosidades: são demonstrações de que a vida é o maior laboratório de inovação existente. E que a economia do futuro será impulsionada por empresas capazes de aprender com a natureza, e não apenas explorá-la.
O Ekôa Park e o aprendizado vivo da floresta
No Ekôa Park, em Morretes (PR), litoral do Paraná, situado no território da Grande Reserva Mata Atlântica, transformamos a biomimética em experiência prática para o desenvolvimento de pessoas e organizações. Desde 2019, mais de 70 empresas e 3 mil profissionais — entre elas Renault, Grupo Boticário, Cargill, Volvo, Sumitomo, EBANX e SEBRAE — já participaram de vivências que unem ciência, propósito e reconexão.
Cada encontro é personalizado conforme a realidade e os desafios da empresa. O processo começa com reuniões de briefing estratégicas e resulta em jornadas imersivas que estimulam integração, comunicação, colaboração e liderança.
Uma das dinâmicas mais simbólicas é o Jogo da Vida, no qual os participantes constroem um terrário, reproduzindo as condições ambientais necessárias para diferentes formas de vida coexistirem. O exercício revela, na prática, que um sistema só prospera quando há equilíbrio, diversidade e cooperação entre suas partes; a mesma lógica que sustenta florestas e organizações saudáveis.
Outras empresas chegam ao ponto de reestruturar sua cultura após essas vivências. Um exemplo é a Renault, que passou a chamar seus departamentos de “ecossistemas”, adotando estratégias inspiradas nos “fragmentos de floresta” para conectar times de diferentes regiões e reter talentos, tecnologia e inovação.
De sobrevivência a regeneração
Em um contexto em que 89% das empresas Fortune 500 de 1955 já não existem e em que a média de vida das corporações encolheu seis vezes nas últimas décadas, segundo dados da PwC, a natureza nos oferece uma aula sobre adaptação e longevidade.
Ela ensina que nada cresce de forma infinita, mas tudo se transforma, recicla e se reinventa. Ecossistemas não competem: cooperam. Não desperdiçam: reaproveitam. E não centralizam o poder: distribuem fluxos de energia e informação.
Ao traduzir esses princípios para o mundo corporativo, a biomimética ajuda empresas a reduzir custos, otimizar processos, engajar pessoas e gerar inovação com propósito, exatamente o que a agenda global da COP-30 exige de quem deseja permanecer relevante.
A oportunidade da década
De acordo com o Instituto Fermaniano de Negócios e Economia da Point Loma University, as inovações bioinspiradas podem gerar até US$ 1,6 trilhão de valor econômico global até 2030. É uma nova economia. E o Brasil, com sua enorme biodiversidade, pode ser protagonista.
Se o mundo discute em Belém metas climáticas e compromissos de carbono, precisamos também discutir modelos de negócios vivos, que operem como ecossistemas: diversos, interdependentes e regenerativos.
É isso que buscamos no Ekôa: oferecer às empresas um espaço de aprendizagem que integra a inteligência da vida à estratégia corporativa. Um laboratório onde executivos podem experimentar, sentir e aplicar os princípios da natureza para inovar com propósito.
Acredito que a natureza não tem um problema de design. Nós temos. E a biomimética nos convida a redesenhar o modo como trabalhamos, lideramos e produzimos valor.
Na COP-30, o planeta pede ação e a biomimética oferece um caminho. Cabe às empresas escolherem se querem apenas sobreviver ou aprender a evoluir junto com a vida.
Escrito por Tatiana Perim, CEO e fundadora do Ekôa Park.

